domingo, 25 de março de 2012

Um pedestre ou ciclista morre a cada 2 dias em estradas

RIO - Passava um pouco das 13h da última quinta-feira quando uma mulher com um bebê de colo foi flagrada pelo GLOBO atravessando o trecho Norte da BR-101, em Tanguá. Um buraco aberto na grade instalada no canteiro central da rodovia facilitou a travessia.
Nesse caso, a imprudência não gerou estatística. Mas números da Polícia Rodoviária Federal (PRF) são o retrato de um problema grave: a cada dois dias, uma pessoa morreu atropelada ou vítima de colisão com bicicleta (387 no total), nas oito rodovias federais que cortam o Estado do Rio, de 1 de janeiro de 2010 a 22 de março deste ano.

O alto índice de ocupação irregular às margens das estradas é apontado por autoridades e especialistas em trânsito como um dos principais fatores responsáveis por mortes. Uma situação, dizem eles, agravada pela imprudência de motoristas que trafegam por acostamentos, por ciclistas que não usam equipamentos de segurança e por pedestres que ignoram as passarelas.

— Nos bairros populares que se formam junto às rodovias há carência de equipamentos urbanos, de infraestrutura, de ruas in$. Os moradores acabam usando as rodovias como avenidas urbanas, e elas não foram projetadas para isso — lamenta o chefe do Núcleo de Acidentes da PRF, inspetor Marcos Moura.

BR-040 é recordista de atropelamentos
 

A BR-040 (Rio-Juiz de Fora) — onde o estudante Thor Batista atropelou e matou o ciclista Wanderson Pereira — tem o maior percentual de mortes por atropelamento e colisão com bicicletas no estado. Quase a metade dos óbitos nessa estrada (48,8% dos 123 mortos), de janeiro de 2010 a 22 de março de 2012, foi de pe$e ciclistas. O trecho da BR-040 com maior incidência desses acidentes fica entre os quilômetros 105 e 122, em Caxias, muito urbanizado. Já nas oito rodovias, 33,8% dos que morreram eram pedestres ou ciclistas.

As estatísticas da PRF revelam ainda que, no trecho fluminense da BR-116 (Rio-São Paulo), 43,8% das 329 mortes, no período analisado, foram de pedestres e ciclistas. Na BR-101 Norte e Sul (Campos a Paraty), essas vítimas representaram 26,9% de um total de 540 óbitos.

No caminho do Rio para a Região dos Lagos, o perigo é constante. Na Niterói-Manilha (BR-$101), são várias comunidades de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí às margens da rodovia, por onde pessoas circulam a pé ou de bicicleta. Caso da Vila Esperança, em São Gonçalo. Presidente da associação de moradores, Wanderley dos Santos conta que a Vila começou a crescer em área de manguezal, há dez anos. Hoje, só na beira da estrada há 76 casas.

— Já perdemos vidas e houve carros que entraram dentro de casas — conta Wanderley.

Supervisor regional de Operações do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Fernando Luiz Correia, explica que, além da faixa de domí$do órgão (em média 75 metros, de um lado a outro da rodovia, incluindo acostamentos) há um trecho não edificante, de 15 metros nas laterais da pista.

— Temos notificado prefeituras, que têm obrigação de não deixar construir nas faixas não edificantes. Também temos processos de retomada de faixas de domínio do Dnit — diz ele.

Em Sapucaia, rodovia vira via de paralelepípedos
 

Responsável no Rio pela área de segurança do Serviço de Operações Rodoviárias do Dnit, Graciano Cirilo Maroquio lembra que a Niterói-Manilha é uma va$da BR-101, construída fora do perímetro urbano:

— Foram ocupando as margens da Niterói--Manillha. Em dias de menor tráfego, é comum crianças brincarem na pista. Nos de maior movimento, surgem os ambulantes.

Há casos que beiram o absurdo. Em Sapucaia, no Centro-Sul fluminense, a BR-393, de repente, se transforma em rua de paralelepípedos no Centro da cidade. O tráfego de caminhões na rodovia provoca engarrafamentos, bem perto do comércio e de casas.

— Rodovia não é para passar dentro de cidades — afirma Graciano.

Subsecretário quer rodovias com calçada e ciclovia

Para o subsecretário estadual de Transportes, o engenheiro Delmo Pinho, as rodovias fluminenses não podem em pleno século XXI ser mais projetadas como nos anos 1970 e 1980. É preciso, diz ele, pensar num novo conceito de estrada, que não seja só para os carros:

— Os seres humanos são importantes nas estradas. As estradas têm que ser para os veículos e para as pessoas. Acostamento é para emergências. Não pode ser lugar para circular, seja carro, pedestre ou bicicleta. Em acostamento, também não pode ter ponto de ônibus.

Pinho defende que as rodovias, nos trechos urbanos, tenham calçada e ciclovia:

— Se não dermos opção, as pessoas vão andar na beira da estrada — afirma o engenheiro. — Além disso, com a frota de carros aumentando 10% ao ano, nos últimos quatro anos, deveria haver um programa do Dnit de desocupação das faixas de domínio das rodovias.

O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) não proíbe pedestres e ciclistas de circularem por acostamento. Um perigo que pode ser minimizado, segundo o engenheiro Graciano Cirilo Maroquio, da área de segurança do Dnit.

— Pedestre e ciclista devem andar na contramão do trânsito. É comum eles ficarem olhando para trás e acabarem na pista de rolamento.

Já o comandante do Batalhão de Polícia Rodoviária (BPRv), tenente-coronel Oderlei dos Santos, ressalta que os remédios para reduzir os acidentes próximos a aglomerados urbanos têm sido a construção de rotatórias e a instalação de lombadas, físicas e eletrônicas.

— Os pedestres atravessam de um lado para o outro e, às vezes, se equivocam na estimativa de velocidade.

Os problemas causados pelo adensamento urbano também preocupam concessionários. Caso do superintendente Geral da Rota 116 (Itaboraí-Friburgo-Macuco), David Augusto Barbosa, que se mostra apreensivo com o crescimento do número de motociclistas em comunidades que beiram a estrada:

— A facilidade de compra faz com que muitos troquem bicicletas por motos. Acidentes envolvendo motocicletas em nossa rodovia tiveram um crescimento de 6%, entre 2010 e 2011. Outro ponto que preocupa é a instalação do Comperj, que poderá resultar num adensamento maior na região de Sambaetiba, em Itaboraí.

Em nota, a Autopista Fluminense, que opera a BR-101 Norte, alega que não tem poder para fiscalizar a ocupação das margens da rodovia. Mas diz que, para incentivar a travessia pelas passarelas existentes na rodovia, promove periodicamente as campanhas "Passarela Viva" e "Viva Ciclista".


Fonte: OGLOBO | Rafael Galdo

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